• Saviitri Ananda

AYURVEDA E OS DOSHAS



Quando falamos em medicina nos referimos à Medicina Ocidental, a maneira mais eficaz de nos curarmos das doenças. Temos esse conceito por causa da nossa escala de valores, da nossa concepção de mundo. Acostumados a colocar em uso o pensamento cartesiano e a praticidade que requer o nosso cotidiano, nos adaptamos a seguir esquemas. Estou doente???  Marco uma consulta e o médico me resolve com uma conversa, um exame físico e receitando um remédio eficiente. Problema resolvido em poucos dias, volto a estar bem.

Os povos orientais tem uma visão mais holística da medicina. A medicina oriental trabalha com o equilíbrio da saúde e, portanto com a prevenção de doenças. Dentro da medicina oriental destaco o Ayurveda ( ayur=vida e veda=conhecimento) um dos sistemas de medicina mais antigos do mundo. Foram encontrados registros publicados em 2 a.C. no vale do rio Indo onde são descritos conhecimentos de anatomia, fisiologia, fitoterapia e procedimentos cirúrgicos avançados que deram sustentação à Ayurveda. 

Mas esses conhecimentos deixaram de ser difundidos entre os séculos X e XII, quando o norte da Índia sofreu invasões de muçulmanos, que impuseram o sistema médico deles e apenas alguns textos foram preservados por monges que fugiram para o Tibete e o Nepal.   Todavia no século XVI o imperador Akbar da Mongólia ordenou a compilação desses conhecimentos e a tradição ayurvédica foi resgatada; entretanto, como todo novo conhecimento envolve mistérios e tudo que não conhecemos causa medo, o desenvolvimento dessa medicina foi restrito a poucos e não propagado às civilizações ocidentais. 

O conhecimento da medicina ayurvédica atravessa o oceano com o estímulo do movimento nacionalista liderado por Gandhi e com a fundação da Universidade de Ayurveda em Gujarat e, principalmente com as publicações de Deepak Chopra (“Saúde não é somente a ausência de doença, mas um estado de bem-estar maior, no qual a pessoa se sente bem só por ser”). 

Hoje em dia existem muitos estudos acadêmicos sobre a medicina ayurvédica, pois ela engloba não apenas conhecimentos biomédicos ou farmacológicos como também históricos, antropológicos, sociopolíticos e econômicos e estes estudos se justificam pela concepção holística do mundo na qual o todo não se resume à soma das partes. A medicina ayurvédica não trata de uma parte do corpo apenas, porque para ela, se existe manifestação em uma parte é sinal de desequilíbrio que afeta o corpo todo.


A medicina ayurvédica é centrada nos DOSHAS, considerados como princípios metabólicos. E o que são os doshas? Doshas são energias invisíveis que governam e regulam todos os nossos processos físicos, mentais e emocionais; podemos dizer que os doshas ocupam os espaços entre a mente e o corpo e assim, precisam estar em perfeito equilíbrio para propiciarem uma qualidade de vida, boa saúde.  


Existem 3 doshas em nosso organismo que devem conviver na mesmo proporção para que estejamos plenos; no entanto os doshas podem aumentar, diminuir, prender-se a certos tecidos, mudar para partes que não são sua área. A ideia central da medicina ayurvédica é o conceito de equilíbrio. 


Para a medicina ayurvédica tudo o que acontece no interior do homem (microcosmo) tem estreita relação com o macrocosmo (mundo material), um é espelho do outro e ambos constituídos da mesma substância; é um sistema preventivo que prega a importância de se viver em harmonia com a natureza para se ter saúde. O grande fundamento do ayurveda é: tudo o que existe é formado por cinco elementos: fogo, terra, água, ar e espaço. 


A filosofia grega pré-socrática tem grande semelhança pois preconizava quatro elementos, mas não considerava o quinto: espaço. Os indianos concluíram que, antes de existir qualquer coisa, deveria haver um princípio de não-existência, o espaço e essa questão contribuiu para o conceito do número zero, que surgiu antes na Índia que no Ocidente. O Dosha nada mais é que a manifestação desse quinto elemento em nosso corpo.


Os doshas são as três forças energéticas fundamentais que representam todos os princípios psicofisiológicos do corpo e descobrir a composição dos doshas de cada paciente é o intuito central do diagnóstico do médico ayurvédico. Nosso corpo é composto por três doshas: Vatta (ar e espaço- controla o movimento), Pitta (fogo e água- metabolismo e digestão) e Kapha (água e terra- estrutura física e equilíbrio dos fluídos).  


Cada um de nós possui uma proporção única dos três no corpo, que é determinada na data do nascimento e essa proporção é imutável, uma espécie de DNA que nos dá todas as características físicas, psíquicas e espirituais. Todavia não existem apenas três tipos de pessoa, cada um de nós pode ter a predominância de um, dois ou até de todos os três doshas no corpo. Isso faz com que cada paciente seja tratado de uma forma única e é a partir do conhecimento desses três doshas que o tratamento deve ser desenvolvido. 

Na verdade como tudo do oriente, isso envolve muita complexidade aos nossos olhos, porque além de termos uma proporção imutável, só nossa, não basta apenas saber dela, de acordo com nossa alimentação, nossa rotina e até nossa profissão, a constituição dos doshas pode se distanciar do equilíbrio e adquirir uma configuração instantânea diferente. A análise dos doshas de uma pessoa é feita através de um minucioso diagnóstico dividido em 4 etapas: observação das características físicas; exame da língua e da urina; questionário para descobrir o perfil psicológico e o exame do pulso.


Uma pequena caracterização dos três doshas, para saciar a nossa curiosidade:


VATTA

Vata é o princípio governante do corpo. A influência de Vata em um ser humano individual pode ser comparada à ação do vento na natureza. Como o vento, Vata está sempre em movimento e tende a ser rápido, frio, seco, áspero e leve. As pessoas que são tipos Vata também são dominadas por essas qualidades.

Características do tipo Vatta: • Constituição física leve e magra • Executa rapidamente as atividades • Fome e digestão irregulares • Sono leve e interrompido; tendência para a insônia • Entusiasmo, vivacidade, imaginação • Excitabilidade, disposição de ânimo variável • Capta rapidamente novas informações mas também esquece rápido • Tendência a se preocupar • Tendência a ter prisão de ventre • Fica cansado rapidamente, tendência a se esforçar demais • A energia física e mental se manifesta aos arrancos

É extremamente Vatta: • Sentir fome a qualquer hora do dia ou da noite • Amar a agitação e as constantes mudanças • Ir dormir em horas diferentes a cada noite, pular refeições e ter hábitos irregulares de um modo geral • Digerir bem a comida num dia e mal no outro • Ter crises emocionais de curta duração e que são logo esquecidas • Andar depressa

A característica do tipo Vata é a "mutabilidade". As pessoas de Vata são imprevisíveis e muito menos estereotipadas do que as do tipo Pitta ou Kapha. Sua variabilidade - de tamanho, forma, disposição de ânimo e ação - é a característica que o distingue. No caso da pessoa do tipo Vata, a energia física e mental se manifesta aos arrancos. Os indivíduos desse tipo tendem a andar depressa, ter fome a qualquer hora, amar a excitação e a mudança, ir dormir a uma hora diferente a cada noite, pular refeições e digerir bem a comida em um dia e mal no dia seguinte.


PITTA

O dosha Pitta governa a digestão e o metabolismo. Pitta é responsável por todas as transformações bioquímicas que ocorrem no corpo, e está estreitamente envolvido com a produção de hormônios e enzima. O Pitta no corpo é comparado ao princípio do fogo na natureza - ele queima, transforma e digere. Pitta é quente, aguçado e ácido, e as pessoas do tipo Pitta geralmente exibem essas qualidades.

Características do tipo Pitta: • Constituição física média • Força e resistência médias • Fome e sede intensas, digestão forte • Tendência a ficar zangado e irritado quando estressado • Pele clara ou rosada, amiúde sardenta • Aversão ao sol e ao calor • Caráter empreendedor, aprecia os desafios • Intelecto aguçado • Fala precisa e articulada • Não consegue pular refeições • Cabelo louro, castanho ou ruivo (ou com nuanças avermelhadas)

É extremamente Pitta: • Ficar faminto se o jantar atrasar meia hora • Viver em função do relógio e detestar desperdiçar o tempo • Acordar à noite sentindo calor e sede • Assumir o comando de uma situação ou sentir que deveria fazê-lo • Aprender através da experiência que as outras pessoas às vezes o acham por demais exigente, sarcástico ou crítico • Ter um andar determinado

A intensidade é a principal característica do tipo Pitta. Cabelo ruivo e uma face rosada indicam uma predominância de Pitta, bem como a ambição, a inteligência aguçada, a franqueza, a ousadia e a tendência a ser argumentador ou ciumento. Mas o lado combativo de Pitta não precisa se expressar de uma forma extravagante ou grosseira. Quando equilibradas, as pessoas Pitta são calorosas, carinhosas e satisfeitas. É extremamente Pitta ter um andar determinado, sentir-se extremamente faminto se a refeição atrasar meia hora, acordar à noite sentindo sede, viver em função do relógio e se ressentir de desperdiçar o tempo.

KAPHA

O dosha Kapha é responsável pela estrutura do corpo. O Ayurveda diz que Kapha está relacionado com os princípios da terra e da água na natureza. O dosha Kapha é tipicamente pesado, estável, firme, frio, oleoso, lento, inerte e macio, e as pessoas do tipo Kapha se caracterizam por essas qualidades materiais.

Características do tipo Kapha: • Constituição física sólida e poderosa; grande força e resistência físicas • Energia uniforme; movimentos lentos e graciosos • Personalidade tranquila e relaxada; custa a ficar zangado • Pele fria, suave, espessa, pálida e frequentemente oleosa • Custa a captar novas informações, mas depois que as assimila costuma retê-las bem • Sono pesado e prolongado • Tendência para a obesidade • Digestão lenta, fome moderada • Afetuoso, tolerante, magnânimo • Propensão para ser possessivo, satisfeito consigo mesmo

É extremamente Kapha: • Ficar ruminando as coisas durante um longo tempo antes de tomar uma decisão • Levantar devagar, ficar na cama um longo tempo e precisar tomar um café logo que acorda • Ser feliz com o status quo e preservá-lo apaziguando os outros • Respeitar os sentimentos das outras pessoas (com relação às quais sente uma genuína empatia) • Buscar conforto emocional na comida • Ter movimentos graciosos, olhos lânguidos e um andar deslizante, mesmo quando gordo

A característica básica do tipo Kapha é "relaxado". O dosha Kapha gera estabilidade e regularidade. Ele fornece a força e a resistência física que definem a estrutura robusta das pessoas típicas do tipo Kapha. Elas são consideradas afortunadas no Ayurveda porque, por via de regra, gozam de excelente saúde e expressam uma visão do mundo serena, feliz e tranquila. É extremamente Kapha ruminar as coisas durante um longo tempo antes de tomar uma decisão, dormir profundamente e levantar devagar, buscar conforto emocional na comida, mostrar-se feliz com o status quo e tranquilizar os outros para preservá-lo.

Quando conhecemos nossas energias dóshicas, basta identificarmos as características físicas e psicológicas que nos afastam da nossa constituição natural e usar os tratamentos ayurvédicos para restabelecer o equilíbrio do corpo. A maioria desses tratamentos tem um caráter preventivo, como a prescrição de exercícios físicos que estejam de acordo com os doshas. Outra forma de tratamento é a definição de uma dieta que equilibre os doshas e nela inexistem produtos enlatados, fermentados, refinados; toda comida tem que ser feita na hora e sem produtos industrializados, pois eles não possuem energia. Os tratamentos incluem meditação, yoga, massagens, ervas e odores. Existem alguns tratamentos que não são tão agradáveis como ingestão de purgantes, indução de vômitos e inalação de fumaça.


Na verdade, a medicina ayurvédica não pode ser cientificamente comprovada e qualquer tentativa de entender o ayurveda com nossa visão ocidental sempre estará incompleta; o ayurveda é ancestral e propõe um estilo de vida baseado nessa experiência acumulada. Ao procurar um terapeuta ayurvédico, não devemos esperar que ele nos receite um remédio que proporcione nossa cura imediata; na verdade  temos que estar preparados e receptivos a uma maneira bem diferente de ver e sentir o Universo. - o que não deixa de ser fascinante.

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