• Saviitri Ananda

BRUXA SIM - COM ORGULHO



"A forma como vemos nosso corpo está impregnada de fantasias, de desejos, de sonhos. E o corpo das mulheres desde sempre foi vestido de tabus e de preconceitos, talvez refletindo o mistério que se encenava em seu interior. O fato é que hoje, talvez até mais do que em qualquer outro momento, mulher é igual a mulher jovem, e ponto. Estamos tão acostumados a rimar mulher com juventude que é quase impossível imaginar outras belezas, outros jeitos."

(...)


"Segundo Bárbara Walker, a Velha era o mais temido aspecto da trindade feminina e o mais poderoso. Nas sociedades pré-cristãs, as mulheres velhas eram encarregadas de infindáveis rituais religiosos, eram parteiras, médicas, curandeiras e possuíam o conhecimento acumulado que as tornava mestras em assuntos tão variados como o cuidado dos bebês e a forma correta de preparar os que iam morrer.




De fato, ao longo da história, se a medicina era assunto dos homens, o cuidado dos doentes, das mulheres que iam dar a luz e das crianças, tradicionalmente era uma tarefa feminina, mais ainda, tarefa das “mulheres mais velhas”, coisa de avó. E é a Avó que nos pega pela mão e nos faz ver um outro lado da Velha terrível, amiga da morte: a Velha sábia e grande contadora de histórias. Bárbara Walker conta que a palavra “saga”, que originalmente se referia às canções nórdicas que relatavam assuntos lendários, literalmente quer dizer “aquela que fala” ou “a sábia”.


As sagas da Escandinávia eram histórias sagradas que foram preservadas porque as sagas ou velhas sábias sabiam escrever em runas. Os homens nórdicos, aparentemente, estavam sempre tão ocupados com as guerras que, em geral, eram analfabetos. Curiosamente, em latim, a palavra “saga”, acabou virando sinônimo de bruxa ou feiticeira."


E agora? Digo que sou avó? Curandeira? Ou seria uma bruxa? Quem sabe uma nagual? Amauta? Xamã???? Já sei: sacerdotisa!!!! Uma salada né? Mas esta sou eu. Gosto de pensar no neopaganismo como uma deliciosa salada colorida, com multifaces e inúmeras possibilidades. O básico é similar: autoconhecimento, despertar do poder interno, culto aos ancestrais, profundo respeito ao divino feminino e à natureza e, de preferência, leveza e bom humor. Uma das vantagens que nós Brux@s, temos ao nosso favor é a quantidade de informação existente sobre os mais diversos panteões e estilos de vida daqueles que nos precederam no culto aos deuses antigos ou ancestrais. Podemos escolher quais divindades cultuar, se uma, duas ou várias do mesmo núcleo ou até mesmo de diversos.


Quando comecei meus estudos sobre bruxaria, não havia quase nada disponível (e isso que já era década de 80); a literatura era escassa e as pessoas se negavam a comentar sequer sobre o assunto, apesar da liberdade de culto já ser respeitada. Com o advento da informática as coisas ficaram mais estruturadas, mais livros à disposição, mais pessoas se expondo, mais organização de rituais.


Certa vez um Mestre (Ascenso), disse que não haveria uma tradição específica, com regras e dogmas preestabelecidos, mas que cada um de nós, poderia deixar “o coração” falar e então saberia o caminho universal, que não é instituído. Mas o que acontece quando uma Brux@ não quer seguir normas?


Em primeiro lugar, a falta de um rótulo incomoda, afinal, todos têm que ter uma etiqueta... os “outros” precisam saber...rs. Tais situações vivem ocorrendo, eu já vi e já passei por muitas delas, porque algumas pessoas têm a necessidade de colocar vida, amor, crenças e tudo o mais em potinhos coloridos para deixar à vista em prateleiras, prontos para o consumo. Talvez seja assim que a maioria veja a vida e, mesmo quando tenta escapar, muitas vezes procura uma outra forma de adequação. Uma fôrma onde se acomodar.


Acredito que ser e viver Brux@ é algo pessoal, que vai mudar sua vida se você deixar, vai abrir sua percepção para algo maior do que seu cérebro pode encaixar. Mas em qualquer uma de suas diversas vertentes, vejo como um dos caminhos espirituais mais difíceis dentre os disponíveis. Não sou contra tradições já existentes, caminhos percorridos por outros. Sou contra formas de controle. Sou contra pessoas que dizem o que é certo ou errado para os outros. Que querem que todos se moldem ao que lhes convém.


Não enxergo o controle como uma forma legítima de se organizar; não acredito que dizer "ah, você não é um sacerdote porque é auto iniciado", ou qualquer outra dessas famosas frases que ouvimos por aí, ajude alguém a crescer dentro do culto aos deuses antigos ou ancestrais. Quem sabe isso seja tudo culpa do momento histórico, que compreende uma exacerbada valorização da aparência, em todos os níveis? Será correto formalizar demais o que é essencialmente livre?

Chamamos de povos Pagãos, aqueles que na Antiguidade tinham nos campos e plantações seu sustento, a base de sua vida. A Terra era, portanto, sagrada para eles e toda a sua cultura e religião girava em torno da Natureza: a época das colheitas, as estações, os Solstícios, etc. Muitos dos povos Pagãos eram politeístas, atribuindo aos deuses, faces da Natureza com que conviviam; assim, havia o deus do Sol, a deusa da Lua. o deus da caça, a deusa da fertilidade, etc. Foram Pagãos os povos Pré colombianos, Gregos, Romanos e Celtas, por exemplo. Uma característica muito marcante da religião Pagã é a existência de deuses e deusas, às vezes com igual poder, e muitas vezes tendo-se a figura feminina como dominante. As sociedades em sua maioria eram matriarcais e as cerimônias religiosas eram conduzidas por sacerdotisas, a medicina era praticada pelas curandeiras, as decisões tomadas pelas Sonhadoras, e o deus não passava do Consorte da Deusa, a Grande Mãe. Como religião, o Paganismo busca, portanto, o equilíbrio, o casamento perfeito entre masculino e feminino, tanto no mundo exterior como dentro de cada indivíduo.

Ser Brux@, ser "pagã" busca reviver o modo de vida desses povos. Paganismo porque retoma suas crenças a práticas pagãs, e Neo, porque tem que se adaptar ao novo modo de produção Capitalista, e muitas vezes à vida urbana. Milhares de pessoas em todo o mundo passam a olhar para a Lua de uma maneira diferente, e a celebrar as estações mais uma vez. As árvores voltam a ser sagradas, e as fogueiras da Primavera são reacesas. Não importa o rótulo, o importante é o que está no coração, o importante é estar na Terra e tê-la dentro de si mesmo, o importante é o amor incondicional pelos outros seres, o trabalho para o bem de todos e a reciprocidade sob todos os aspectos.


Bjos no Coração

Namastê!

Saviitri Ananda - CRTH/BR0230



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