• Saviitri Ananda

QUATRO VERDADES - BUDISMO


Quando as pessoas pensam no Budismo, logo imaginam uma religião passiva baseada em atos tranquilos como meditar, passear pelos campos, comer frutas e vegetais e se manter contemplativo perante os acontecimentos no mundo... uma forma fácil e calma de se viver. Creio que poucas são aquelas que sabem que o Budismo é um dos sistemas doutrinários mais rígidos e difíceis, porque ele prega o autocontrole, o "dominar-se a si mesmo".


Os princípios budistas estão baseados nas "Quatro Verdades":


1- Primeira nobre verdade:

"(...) esta é a nobre verdade do sofrimento: nascimento é sofrimento, envelhecimento é sofrimento, enfermidade é sofrimento, morte é sofrimento; tristeza, lamentação, dor, angústia e desespero são sofrimento; a união com aquilo que é desprazeroso é sofrimento; a separação daquilo que é prazeroso é sofrimento; não obter o que queremos é sofrimento; em resumo, os cinco agregados influenciados pelo apego são sofrimento.(...)"


2- Segunda nobre verdade:

"(...) esta é a nobre verdade da origem do sofrimento: é este desejo que conduz a uma renovada existência, acompanhado pela cobiça e pelo prazer, buscando o prazer aqui e ali; isto é, o desejo pelos prazeres sensuais, o desejo por ser/existir, o desejo por não ser/existir.(...)"


3- Terceira nobre verdade:

"(...) esta é a nobre verdade da cessação do sofrimento: é o desaparecimento e cessação sem deixar vestígios daquele mesmo desejo, o abandono e renúncia a ele, a libertação dele, a independência dele.(...)"


4- Quarta nobre verdade:

"(...) esta é a nobre verdade do caminho que conduz à cessação do sofrimento: é este Nobre Caminho Óctuplo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta, concentração correta.(...)" .



Neste momento você deve estar perguntando: E o que o Budismo tem a ver com a raiva?

Com toda razão. Estas verdades nos alertam que todo o sofrimento, toda decepção, todo o mal-estar pelos quais possamos passar e que podem nos deixar frustrados a ponto de gerar sentimento de raiva, são consequências de nossa própria falta de autocontrole e do nosso desconhecimento das potencialidades do ego. Por isso, precisamos meditar e mergulhar em nosso interior, procurar ter o entendimento correto de como funcionamos, como sentimos as coisas, como reagimos à elas.


Quando se fala em "correto" dentro dos preceitos budistas, não estamos falando em regras sociais ou julgamentos, mas sim da maneira mais amorosa que for possível: compreender, pensar, falar, agir, viver, trabalhar, estar atento e conhecer a si e a natureza da qual fazemos parte. Assim, estaremos aliviando a amargura, a dor, as frustrações e qualquer tipo de sofrimento. Tudo é normal, acontece com todas as pessoas numa hora ou outra; o que não podemos deixar é que esse sentimento de raiva perdure e se infiltrem em sentimentos bons. A raiva é amplamente destrutiva, faz parte do lado sombrio e escuro e já desconstituiu muitas amizades, famílias e mesmo vidas. Se não estivermos atentos e deixarmos que esse sentimento tome corpo, poderemos até destruir a nós mesmos.


A raiva faz por nós, tudo o que um inimigo poderia fazer; um inimigo iria adorar nos ver deprimidos, amargurados, pra baixo... porque assim, ele teria condições de vencer facilmente qualquer que fosse a batalha. Não precisamos ser exímios guerreiros de fato, mas devemos lembrar que para muitos de nós, o grande campo de batalha é o espiritual, e a ocasião exige que estejamos em nosso maior potencial e nossa mais intensa Luz. No campo da espiritualidade, as batalhas travadas exigem que estejamos sempre a nossa melhor forma e não podemos nos deixar contaminar, enfraquecer pelos problemas da vida cotidiana. Sob todos os aspectos e principalmente do ponto de vista espiritual, a raiva pode nos destruir, porque está em nós e precisamos deixá-la fluir de uma maneira saudável, pois uma vez em nós, dificilmente nos livraremos dela. E estudos científicos comprovam que a raiva não liberada está relacionada a problemas médicos tais como a hipertensão, ataque cardíaco, depressão, estresse; pois a raiva pode afetar o metabolismo, causando flutuações em níveis de açúcar de sangue e em problemas digestivos.


Para quem segue, ou conhece a filosofia budista, a meditação é um meio muito eficaz para combater a raiva e outros sentimentos egóicos que nos assolam, porque na meditação somos mergulhados em nós mesmos e enxergamos a raiz das causas que nos desestruturam. Quando nós meditamos, podemos nos conectar com o nosso "Eu Divino" e nos unirmos a Ele, deixando que essa integração nos fortifique e com a alma "lavada" e a força consolida, poderemos nos conscientizar da alegria e da liberdade que temos naquele momento... dissipando a raiva ou qualquer outro sentimento de teor negativo. Meditando, podemos produzir uma pausa no corre-corre de nossas vidas cotidianas e nos livrar da raiva.


Agora, nós todos queremos vencer nossas batalhas e nos livrarmos da raiva, não é mesmo? Então que tal aprender a fazer este trabalho de dentro para fora? Como você pode ver, este não é um trabalho fácil de ser feito, exige muita força de vontade e muita auto-disciplina; pensar, compreender, falar, agir, viver, trabalhar, estar atento e conhecer a si e a natureza da qual fazemos parte, requer "paciência budista". Todavia, se você conseguir praticar meditação (uma viagem pra dentro de si mesmo), uma vez por dia, primeiro poucos minutos, depois um pouco mais... vai constatar que a raiva não vai ter mais espaço dentro de você, porque você não vai ter tempo pra ela, visto que esse trabalho lhe toma algum tempo. Praticando meditação, observamos que o caminho budista não é algo tão passivo como aparenta; que ele nos ensina que a maior batalha é dentro de cada um e que o autocontrole e o controle da raiva nos ensinam a vivermos melhor, termos uma vida íntegra, sermos mais compassivos e amorosos com os outros, sobretudo com a gente mesmo.


Existem tempos em que o nosso dia-a-dia pode neutralizar a nossa habilidade de controlar a amargura, o desespero, o cansaço e nos sentimos como se não tivéssemos inteligência emocional. Pensamos, refletimos e não nos encontramos em nosso interior; não sabemos no que acreditar e muito menos em como manter nosso equilíbrio mental, emocional e espiritual. São momentos difíceis em que não conseguimos nos manter pacíficos, que ficamos com raiva diante das adversidades, pois nossas expectativas se frustram, nossos sonhos desvanecem.

Nós podemos então criar uma oportunidade única: não nos transformarmos no que um inimigo gostaria, mas sim em quem nós realmente queremos ser.


Somos seres de natureza amorosa, estamos aqui para sermos felizes e é muito importante que, numa hora de desespero, que a raiva venha, mergulhar em nós mesmos e transformar a sua manifestação em sentimento amoroso para conosco e para com os que nos rodeiam. A meditação é um momento de amor a si mesmo, uma oração que nos conecta ao Universo, e a força que é então gerada, faz com que o medo e a raiva se transmutem em fé e amor. Por isso, se a raiva vier, lembre das Quatro Verdades, e medite, vá para esse local dentro de você, onde qualquer coisa é possível, basta acreditar!


Bjos no Coração

Abraço na Alma

Namastê!

Saviitri Ananda - CRTH/BR0230

0 comentário

Posts recentes

Ver tudo