• Saviitri Ananda

SOU NEO PAGÃ - UMA BRUXA



Hoje me lembrei muito bem daquela história dos cegos que queriam "ver" um elefante. Quando foram levados ao animal e passaram a tateá-lo, não conseguiram um consenso, pois cada um deles tateou uma parte distinta do elefante e acreditou na sua própria versão (parede – corpo; coluna – perna; serpente – tromba; lança – presa; leque – orelhas).


Esta história me ocorreu, porque perguntaram a minha religião e eu disse que era pagã ou neo-pagã e me toquei de que, o neopaganismo, sem dúvida, é “um elefante para os cegos”. Engloba tantas crenças, filosofias e preceitos religiosos que é impossível vê-lo com todo seu colorido e nuances. E o pior, é que os "cegos", se fixam apenas numa parte, acreditando conhecer o todo e encontram pelo caminho outros que não conseguem ver, contam tudo o que acharam do elefante, sem dizer é claro, que só conseguiram tatear o elefante numa parte e que mal conheciam, ou imaginavam como ele poderia ser em sua totalidade.


Com esta visão do “elefante”, do neopaganismo como apenas uma religião, certos “mestres” pregam e outros ainda mais cegos que estes, os seguem, acreditando em uma única casa, como a morada da divindade. E podem acreditar são muitos... cegos ou não, que vêem no paganismo apenas a religião e buscam um templo da grande mãe onde aprenderão tudo sobre ela; mas como o cego da história, têm na sua lembrança um templo e, sem perceber, imediatamente todas as luzinhas do seu cérebro piscam em alta intensidade, fazendo todas as conexões deste templo da memória, que foi a instrução cristã da primeira comunhão e a vida familiar calcada (da boca pra fora) nos valores cristãos.


A partir daí por mais que digam e até mesmo acreditem que são pagãos, não se livram da pesada carga do cristianismo, e por mais que multipliquem seus deuses, seus valores e até mesmo a sexualidade, continuam sendo regidos pelo sistema de culpa e castigo imposta pelo padrão de vibração 12:60.


Vendo o paganismo apenas como religião, não se vive o paganismo, não se sente à liberdade por ver suas culpas abolidas; sem a mudança dos valores não existe o paganismo. Um dos cegos, o que apalpou o corpo do elefante imaginou que esse fosse um muro (sólido, maciço e muito grande, intransponível), saiu contando que o elefante era o fim do mundo, e que depois do elefante não existiria mais nada.

E foi assim que muitos entenderam o paganismo, como algo que é o fim do caminho e quando se chega até o paganismo, não se tem mais que prosseguir, pois atingiu a verdade e além dela não existe mais nada. Todavia, chegar ao paganismo é muitas vezes um começo, e não o fim; é preciso estudar muito, aprofundar e praticar cada coisa aprendida, pois sem o sentimento, o conhecimento e a prática, o paganismo se torna algo vazio, sem fazer o menor sentido.

Existem muitas pessoas que se dizem pagãs e acreditam realmente no impossível, como luzes de neon piscando, animais voando, seres subindo pelas paredes, como se tivesse em pleno estado de miração, ou tivesse ingerido mescalina em dose errada. Vivem vendo ou buscando ver coisas que não existem, transformando fotos tremidas em fotos Kirlian, e fotos com longa exposição em larvas astrais ou extraterrestres; acreditam em tudo e buscam contar experiências ainda mais extravagantes, fazendo com que os outros torçam o nariz para o paganismo ou acreditem que seja coisa de adolescentes com hormônios alterados, ou histeria coletiva.

São inúmeras as possibilidades que os “cegos” teriam descoberto no elefante ou os pagãos que só se fixam em uma parte do paganismo, nem um, nem outro nunca conseguiriam encontrar uma visão total. Poderia falar dos muitos modos pelo qual as pessoas percebem o paganismo, mas passaríamos dias aqui comentando o que cada um (cego ou não) "viu" ; e na verdade, muitos “pagãos”, se recusam a ver o paganismo como um todo, e a perceber num outro pagão um aliado e não um inimigo, só porque um comemora pelo Norte e o outro pelo Sul, ou porque um é iniciado e o outro autoiniciado, ou porque a carta patente (coisa que não existe no paganismo, e sim nas ordens Cristãs ou em ordens baseadas nas ordens cristãs), é em papel brilhante ou em pergaminho.


É preciso que se olhe para o “todo”, e perceba-se então que há séculos não existe um movimento tão embasado e complexo como o Neopaganismo; nem mesmo o renascimento, que foi a primeira investida neopagã pôde ser tão completo como esta nova retomada do paganismo. Porque apesar de a Renascença ter sido atuante em todas as artes, escolas de pensamento, técnicas de medicina, engenharia e tantas outras, não conseguiu mudar o pensamento religioso nem tampouco se livrar da culpa e do medo do castigo divino (vejam que na Renascença, em contrapartida aos avanços, a Igreja Romana manteve o retrocesso com milhares de pessoas acusadas de bruxaria e mortas na fogueira!).


Hoje ouso dizer que eu sou “pagã”, porque além do paganismo ser atuante em todas as artes, escolas, técnicas e mesmo classes sociais, é a religião antiga que nos livra da culpa e do pecado, de uma frequência condicionadora e que permite que se vá muito mais adiante nas artes e no pensamento humano.


É no paganismo que se busca, através dos nossos deuses, mestres e ancestrais, o nosso equilíbrio (do planeta), o que era possível no tempo da religião da Grande Mãe quando a natureza regia os ciclos da vida e da morte; sem pecados e sem medo da inquisição, nada mais é proibido e nossa mente pode viajar em todas as direções. O mais preocupante é que poucas pessoas percebem o elefante inteiro e continuam brigando e com isto esfacelando o neopaganismo em facções cada vez menores, fazendo o jogo dos monoteístas revelados e entregando o ouro para os bandidos.


Devemos buscar enxergar o todo e com isto perceber que o paganismo é muito mais que uma nova religião (mesmo porque são várias), é uma nova maneira de ver o mundo, como antes das religiões dominadoras dos pastores, dos ciganos e suas hordas invasoras. Não se fazem necessário templos ou instituições, as pessoas devem-se unir pelas semelhanças e não deixar que as diferenças possam separá-las; mesmo porque, as concordâncias são muito maiores que as diferenças. Então, vamos olhar o elefante em toda sua imensidão e poder, percebendo sua força.

E agora? Digo que sou pagã? Ou seria uma bruxa? Quem sabe uma nagual? Amauta? Xamã???? Já sei: sacerdotisa!!!! Uma salada né? Mas esta sou eu. Gosto de pensar no neopaganismo como uma deliciosa salada colorida, com multifaces e inúmeras possibilidades. O básico é similar: autoconhecimento, despertar do poder interno, culto aos ancestrais, profundo respeito ao divino feminino e à natureza e, de preferência, leveza e bom humor. Uma das vantagens que nós (pagãos), temos ao nosso favor é a quantidade de informação existente sobre os mais diversos panteões e estilos de vida daqueles que nos precederam no culto aos deuses antigos ou ancestrais. Podemos escolher quais divindades cultuar, se uma, duas ou várias do mesmo núcleo ou até mesmo de diversos.

Quando comecei meus estudos sobre bruxaria, não havia quase nada disponível (e isso que já era década de 80); a literatura era escassa e as pessoas se negavam a comentar sequer sobre o assunto, apesar da liberdade de culto já ser respeitada. Com o advento da informática as coisas ficaram mais estruturadas, mais livros à disposição, mais pessoas se expondo, mais organização de rituais.


Certa vez um Mestre (Ascenso), disse que não haveria uma tradição específica, com regras e dogmas preestabelecidos, mas que cada um de nós, poderia deixar “o coração” falar e então saberia o caminho universal, que não é instituído. Mas o que acontece quando um neopagão não quer seguir normas?


Em primeiro lugar, a falta de um rótulo incomoda, afinal, todos têm que ter uma etiqueta... os “outros” precisam saber...rs. Tais situações vivem ocorrendo, eu já vi e já passei por muitas delas, porque algumas pessoas têm a necessidade de colocar vida, amor, crenças e tudo o mais em potinhos coloridos para deixar à vista em prateleiras, prontos para o consumo. Talvez seja assim que a maioria veja a vida e, mesmo quando tenta escapar, muitas vezes procura uma outra forma de adequação. Uma fôrma onde se acomodar.


Acredito que o neopaganismo, é algo pessoal, que vai mudar sua vida se você deixar, vai abrir sua percepção para algo maior do que seu cérebro pode encaixar. Mas em qualquer uma de suas diversas vertentes, vejo como um dos caminhos espirituais mais difíceis dentre os disponíveis. Não sou contra tradições já existentes, caminhos percorridos por outros. Sou contra formas de controle. Sou contra pessoas que dizem o que é certo ou errado para os outros. Que querem que todos se moldem ao que lhes convém.


Não enxergo o controle como uma forma legítima de se organizar o neopaganismo; não acredito que dizer "ah, você não é um sacerdote porque é auto iniciado", ou qualquer outra dessas famosas frases que ouvimos por aí, ajude alguém a crescer dentro do culto aos deuses antigos ou ancestrais. Quem sabe isso seja tudo culpa do momento histórico, que compreende uma exacerbada valorização da aparência, em todos os níveis? Será correto formalizar demais o que é essencialmente livre?

Chamamos de povos Pagãos, aqueles que na Antiguidade tinham nos campos e plantações seu sustento, a base de sua vida. A Terra era, portanto, sagrada para eles e toda a sua cultura e religião girava em torno da Natureza: a época das colheitas, as estações, os Solstícios, etc. Muitos dos povos Pagãos eram politeístas, atribuindo aos deuses, faces da Natureza com que conviviam; assim, havia o deus do Sol, a deusa da Lua. o deus da caça, a deusa da fertilidade, etc. Foram Pagãos os povos Pré colombianos, Gregos, Romanos e Celtas, por exemplo. Uma característica muito marcante da religião Pagã é a existência de deuses e deusas, às vezes com igual poder, e muitas vezes tendo-se a figura feminina como dominante. As sociedades em sua maioria eram matriarcais e as cerimônias religiosas eram conduzidas por sacerdotisas, a medicina era praticada pelas curandeiras, as decisões tomadas pelas Sonhadoras, e o deus não passava do Consorte da Deusa, a Grande Mãe. Como religião, o Paganismo busca, portanto, o equilíbrio, o casamento perfeito entre masculino e feminino, tanto no mundo exterior como dentro de cada indivíduo.

O Neopaganismo busca reviver o modo de vida desses povos. Paganismo porque retoma suas crenças a práticas pagãs, e Neo, porque tem que se adaptar ao novo modo de produção Capitalista, e muitas vezes à vida urbana. Milhares de pessoas em todo o mundo passam a olhar para a Lua de uma maneira diferente, e a celebrar as estações mais uma vez. As árvores voltam a ser sagradas, e as fogueiras da Primavera são reacesas. Não importa o rótulo, o importante é o que está no coração, o importante é estar na Terra e tê-la dentro de si mesmo, o importante é o amor incondicional pelos outros seres, o trabalho para o bem de todos e a reciprocidade sob todos os aspectos.

Bjos no Coração

Namastê!

Saviitri Ananda - CRTH/BR0230




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