• Saviitri Ananda

TANTRA - O CONHECIMENTO ATRAVÉS DO CORPO


O Tantra é uma filosofia hindu de natureza comportamental tendo por principais características a sua natureza matriarcal, sensorial, naturalista e desrepressora. Atualmente o Tantra começa a ser visto aqui no ocidente, como ele realmente é: própriocepção, conhecimento. A prática do Tantra é antes de qualquer coisa, consciência, para nos levar de volta para casa, para nossa origem divina. Os conceitos do Tantra são baseados no culto de Shiva e Shakti: visualiza o Brahman definitivo como Param Shiva, manifesto através da união de Shiva (a força passiva, masculina, de Shiva) e Shakti (a força criativa, feminina, de sua esposa, conhecida também como Kali, Durga, Parvati e outras).

Autores "especializados" em Tantra dizem que o Tantra surgiu entre 600 e 900 anos antes de Cristo, mas, na verdade, não se conhece a origem do Tantra; basta citar que o "vigyam bhairav tantra" remonta a 5 mil anos, todavia o Tantra ainda é muito anterior a este período. Nas tradições iniciáticas do Tantra têm-se que ele está inserido no contexto do processo formativo da humanidade, estando presente no desenvolvimento humano desde os primórdios. Jung relata que ele estaria inserido em nosso DNA, em nossos cromossomos e possui uma contraparte arque tipa, de complexo espiritual que desconhecemos ainda. A prática do Tantra se assemelha à prática do Yoga no que diz respeito ao alcance de um amplo estado de consciência superior, Bhúdico, chamado de hiper consciência ou supra consciência – um estado que não se alcança com a mente ou com a disciplina, pois é necessário ir além da mente.

O Tantra é uma ciência espiritual e mística , um modo de vida, orientado para o auto-conhecimento, para desenvolver mais consciência, sensibilidade, aceitação, naturalidade, totalidade e presença em todos os aspectos da vida. Tantra é viver e aproveitar a vida em seu máximo, sem barreiras, Tantra é viver e experimentar toda a beleza do aqui e agora, com a mente livre do passado e das expectativas do futuro. Está centrado no desenvolvimento e despertar da kundaliní, a "serpente" de energia ígnea, de natureza biológica e manifestação sexual, situada na base da espinha que ascende através dos chakras até se obter a união entre Shiva e Shakti (samadhi). Tantra é "Leela" (palavra de origem sânscrita que significa brincadeira, no sentido de que a vida é uma brincadeira, e não uma coisa séria). Assim ser "tântrico" é jogar o jogo da vida conscientemente, é saber-se de natureza básica e Divina e brincar no jogo da Vida um pouco mais.

Tantra é um termo muito amplo e a maioria dos trabalhos com o Tantra não trazem um compreensão clara da maravilhosa herança do que pretendem representar e incorrem na distorção e na vulgarização do sexo banal, do jogo de sedução e dos relacionamentos, como se o Tantra objetivasse isso. Tornou-se "tantrismo", uma evasão fácil, reduto para inúmeros degenerados morais e sexuais e mesmo em seu país natal, os ensinamentos Tântricos caíram em descrédito precisamente por causa do uso indiscriminado de muitos de seus fundamentos atrelados ao sexo e à sexualidade. Muitas pessoas também, pensam que o Tantra é Yoga; porque houve vertentes filosóficas que se apropriaram das fundamentações do Tantra original, associando-as com práticas e conceitos religiosos também a subverteram para várias fundamentações filosóficas, agregando formas e conteúdos antagônicos ao Tantra ( ex: karma e dharma).

O Tantra é comportamental, uma atitude espontânea pela qual o ser humano alcança um profundo sentimento de religiosidade, está impregnado de espiritualidade, mas não é religião; pois não possui dogmas, sistemas, preces, orações, rituais ou símbolos. No Tantra não se faz uso de mantras com a conotação usual que os mantras adquiriram, não se utiliza de mudras, de paramentações ou atitudes religiosas. Originalmente não está ligado aos "ismos" (budismo, hinduísmo, taoismo, jainismo), embora algumas correntes ligadas a essas religiões tenham se utilizem, contraditoriamente, de fundamentos aplicados ao Tantra, alterando muitos de seus preceitos, incorporando ideologias e posturas que na essência desmontam todos os objetivos do Tantra e muitos creem também que o Tantra refere-se à contenção ejaculatória de conformidade com o pensamento taoista como um caminho espiritual. Todavia em sua originalidade não prevê nenhum tipo de contenção ejaculatória, pois refere-se ao relaxamento e descondicionamento do corpo.

Através do silêncio, da meditação o Tantra resgata o sagrado e o divino que existe em cada ser humano. Pelo ato da entrega e do relaxamento profundo, nos encontramos com o divino em nós e no outro, o triângulo perfeito. Muitos autores colocam que o tantra é composto por dois ramos: "mão esquerda" e a "mão direita" e embora o objetivo geral dos dois seja o mesmo, os processos utilizados diferem. A "mão esquerda"( Avidya ) está ligada muitas vezes à procura de poderes ocultos e à extroversão de energia psíquica sob forma de capacidades supra-normais e a "mão direita" (tantra do conhecimento) está ligada à canalização de toda a energia para a elevação espiritual do ser humano. No budismo tântrico se enfatiza a necessidade de supervisão por um orientador de confiança.

O Tantra vê o corpo como um meio para o conhecimento; usa mantras (vocalização de sons e ultra sons em sânscrito), yantras (figuras geométricas) e rituais que incluem formas de meditação de grande complexidade, realizadas com orientação de uma pessoa experiente, pois podem ser fatais. Para que a compreensão profunda aconteça é necessário uma mudança de paradigmas onde a visão cartesiana, filosófica, religiosa e científica seja alterada para uma visão aberta ao novo, ao misterioso e ao desconhecido.


O Tantra trata basicamente de relaxamento, aceitação e entrega, não tendo nenhuma relação com controle ou poder, com manipulação da energia seja através da mente ou sobre o corpo físico. Ele não se utiliza de ásanas ou posturas utilizadas como rituais; suas técnicas de meditação são dinâmicas e vivenciais, flexíveis, e podem ser modificadas pelo Mestre ou facilitador segundo a necessidade que cada indivíduo ou grupo apresentem no seu aprendizado.

Não há rigor em Tantra, não há disciplina, não há imposições, oposições ou repressões e muitos princípios do Tantra estão presentes no Yoga porque o Yoga apropriou-se desses princípios, integrando-os ao seu sistema, dando a impressão de que pertencem ao Yoga.

O contato com Tantra, possibilita uma espécie de saber, mas não é o saber que se aplique racionalmente pela lógica ou pela razão; é uma sabedoria profundamente transformadora, como a nossa humanidade jamais conheceu. O Tantra não se utiliza da linguagem falada, mas do silêncio, do inaudível; a pessoa é conduzida a viver plenamente a sua sensibilidade e a totalidade de suas percepções (físico, mental, emocional e espiritual), sem buscar como rota de fuga a tagarelice mental, verbal, ou outras formas de comunicação. É reconhecido por muitos como uma ciência comportamental, mas suas bases são completamente diferentes da ciência oficial (que se baseia na observação através da razão e da lógica), porque é sensibilidade consciente e abertura pra novos caminhos cognitivos.


O Tantra lida com o hemisfério direito cerebral, com a experiência não verbal, com aspectos sensoriais que inferem diretamente no aspecto comportamental e também não é filosofia, pois o caminho de auto realização do Tantra é pela percepção de si mesmo (propriocepção), pelo reconhecimento e expansão de nossa sensibilidade e consciência, não pela compreensão das palavras ou pelo entendimento intelectual; a linguagem do tantra é experimental, vivencial e integrativa, nos possibilita um entendimento experimental, no qual alcançamos uma compreensão mais abrangente e mais significativa que aquela compreensão usual proveniente das palavras e do raciocínio lógico.


O Tantra traz toda sabedoria antiga aliada as mais modernas técnicas terapêuticas, adaptada para a sociedade de hoje; trata do ser humano como ele é, e não como deveria ser, preocupando-se com ele em sua totalidade, com a consciência da própria vida, levando-nos a desenvolver todo o nosso potencial através de nossa própria experiência, considerando toda e qualquer situação como uma oportunidade de autoconhecimento e expansão de nossas capacidades, propiciando assim uma maior integração entre todos os aspectos do nosso Ser. É uma prática da vida existencial real.


Bjos no Coração Abraço na Alma Namastê!

Saviitri Ananda - CRTH/BR0230


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